Dois dias depois do fim do prazo das convenções partidárias, uma carta começou a circular em grupos de WhatsApp de políticos e lideranças do Paraná. O texto, enviado pelo ex-deputado estadual e ex-secretário das Cidades Guto Silva, não era um comunicado oficial. Era um desabafo pessoal — e revelador.
“Estou triste pelo desfecho, mas de cabeça erguida”, escreveu Guto. “Por 18 anos me preparei, estudei e caminhei com a vontade genuína de colocar essa bagagem em uma eleição majoritária e fazer a diferença na vida de todos. Por duas vezes, os rumos da política não permitiram que essa candidatura se concretizasse.”
A mensagem, publicada originalmente pelo Paraná Portal em 6 de agosto, expõe um dos capítulos mais humanos da sucessão de Ratinho Junior (PSD) — aquele em que um nome forte do governo fica pelo caminho.
Quem é Guto Silva
Guto Silva construiu trajetória ascendente na política paranaense. Foi deputado estadual e ocupou a Secretaria das Cidades durante o governo Ratinho Junior, onde atuou em programas de habitação e desenvolvimento municipal. Era considerado um dos nomes mais próximos do governador e, em mais de uma ocasião, teve seu nome cogitado para a disputa majoritária.
A carta, no entanto, confirma que esse caminho se fechou. Duas vezes consecutivas, escreve Guto, “os rumos da política não permitiram” que a candidatura saísse. A primeira foi nas eleições de 2022, quando Ratinho Junior foi reeleito no primeiro turno. A segunda foi agora, em 2026, quando o PSD e o governo optaram por apoiar o deputado federal licenciado Sandro Alex (PSD) como candidato ao Palácio Iguaçu.
O que diz a carta
Na mensagem, Guto faz questão de afirmar que não se trata de despedida, mas de gratidão. “Esse silêncio nunca foi ausência, e muito menos falta de carinho ou de respeito por vocês; foi apenas o espaço necessário para refletir sobre tudo com calma”, escreveu.
O ex-secretário diz que jamais aceitaria ser “motivo de divisão” e que nunca colocou um projeto pessoal acima do coletivo. A declaração ecoa as dificuldades enfrentadas pelo grupo governista para consolidar um nome único em torno da sucessão — processo que o Radar Digital PR já analisou ao mostrar como a disputa silenciosa dentro da base aliada começou antes do previsto.
“Levo comigo as histórias ouvidas, as conversas sinceras, as estradas percorridas, as lutas e as conquistas que construímos juntos”, afirma. “Conheci o Paraná cidade por cidade e carrego no coração os amigos que fiz em cada canto deste Estado.”
O contexto da sucessão
A escolha de Sandro Alex como candidato do grupo governista não foi imediata nem unânime. Nos meses que antecederam as convenções, circularam nos bastidores nomes como o do próprio Guto Silva, do presidente da Alep, Alexandre Curi (Republicanos), e do ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (PSD). A definição do nome de Sandro Alex representou o fechamento de questão em torno de um candidato com perfil de gestão e trânsito político no PSD e no PL.
Enquanto isso, o senador Sergio Moro (PL) consolidou sua candidatura ao governo com apoio do PL, Novo, Democracia Cristã e Podemos, formando a principal força de oposição ao grupo de Ratinho Junior. A corrida ao Senado também se definiu com nove candidatos disputando duas vagas.
O que revela o episódio
A carta de Guto Silva é mais do que um desabafo pessoal. Ela expõe um fenômeno comum em processos de sucessão política: o custo das escolhas e a dificuldade de manter unido um grupo quando o número de candidatos possíveis supera o número de vagas disponíveis.
Guto, que esteve em todas as regiões do Estado durante sua passagem pela Secretaria das Cidades, construiu capital político próprio. Mas, no xadrez da sucessão, a opção do governo foi por um nome que representasse continuidade administrativa com capacidade de diálogo com diferentes espectros partidários.
O ex-secretário encerra a carta com uma promessa: “Sigo presente, contribuindo como cidadão que ama o seu lugar.” Resta saber se essa contribuição se dará nos bastidores ou em uma nova candidatura no futuro — e como o episódio influenciará a dinâmica interna do grupo governista nos meses que antecedem a eleição de 4 de outubro.