Investigação apura velocidade, jornada e trajetória do caminhão que teria invadido a pista contrária antes da colisão que matou 23 pessoas; vídeo antigo a 120 km/h não comprova a velocidade no momento do acidente
A investigação sobre a colisão que matou 23 pessoas na BR-373, em Ipiranga, entrou em uma etapa decisiva: descobrir a velocidade, a trajetória e as condições de condução do caminhão que atingiu frontalmente um micro-ônibus da Secretaria de Saúde de Imbituva.
O acidente ocorreu por volta das 3h30 de quarta-feira (19), no km 209 da rodovia, nos Campos Gerais. O veículo municipal transportava pacientes e acompanhantes para hospitais da Grande Curitiba. Cinco pessoas sobreviveram e foram encaminhadas para unidades de saúde de Ponta Grossa.
Os primeiros levantamentos da Polícia Rodoviária Federal indicam que o caminhão seguia em direção a Prudentópolis quando teria invadido a faixa contrária. A pista era simples e, segundo as informações divulgadas até agora, não havia condição climática adversa no momento da colisão.
A causa, porém, ainda não foi definida. Velocidade excessiva, cansaço, distração, falha mecânica e perda de controle permanecem como possibilidades que dependem da perícia.
Tacógrafo apresentava problema
Uma das principais dificuldades da investigação está no equipamento responsável por registrar a movimentação do caminhão. De acordo com informações atribuídas à PRF, o cronotacógrafo apresentava problema.
O equipamento registra dados como velocidade, distância percorrida e períodos de condução e parada. Essas informações podem ajudar a reconstituir os minutos anteriores à colisão e indicar se o motorista respeitou os limites de velocidade e os intervalos obrigatórios de descanso.
A irregularidade não prova que o caminhão estava acima da velocidade permitida. Também não estabelece, por si só, relação causal com o acidente. A perícia deverá verificar se o equipamento estava inoperante, adulterado, sem aferição válida ou apenas danificado pelo impacto.
Além do tacógrafo, os investigadores podem recorrer à telemetria da transportadora, ao rastreador do veículo, às câmeras existentes na rodovia, às marcas deixadas na pista e às condições de deformação dos veículos.
O caminhão, utilizado no transporte de suínos, estava vazio no momento da colisão. O micro-ônibus municipal estava em operação havia cerca de dois meses e, segundo as informações divulgadas, encontrava-se regularizado. Folha de S.Paulo
Vídeo mostra 120 km/h, mas foi gravado em 2025
Após o acidente, voltou a circular um vídeo publicado em maio de 2025 em um perfil atribuído ao motorista do caminhão. A gravação mostra o painel de um veículo indicando 120 km/h.
O conteúdo chama atenção, mas exige cautela. O vídeo foi publicado aproximadamente um ano antes da tragédia. Não é possível determinar pelas imagens onde ele foi gravado, qual veículo aparece, as condições da via ou quem conduzia naquele momento.
Sobretudo, a gravação não comprova que o caminhão trafegava a 120 km/h na BR-373 antes da colisão.
O material poderá servir como elemento contextual para a investigação, especialmente na apuração de uma possível conduta habitual. Não pode, entretanto, substituir a perícia técnica nem ser apresentado como registro do acidente. Band Paraná
Possibilidade de sono ao volante
A hipótese de o motorista ter dormido ao volante também está entre as linhas analisadas. O caminhão teria avançado para a pista contrária sem sinais inicialmente divulgados de uma tentativa expressiva de frenagem ou desvio.
Essa interpretação ainda depende do laudo. Para avaliar a possibilidade de fadiga, os investigadores deverão reconstituir o trajeto percorrido pelo caminhão, os horários de carregamento e deslocamento, as paradas realizadas e a jornada acumulada do motorista.
Também será necessário verificar documentos da transportadora, registros de pedágio, notas fiscais, abastecimentos, câmeras e dados eletrônicos eventualmente preservados.
A empresa responsável pelo caminhão lamentou a tragédia e informou que está colaborando com as autoridades.
A fiscalização antes do acidente
A investigação individual precisa ser acompanhada de uma pergunta mais ampla: como funcionava a fiscalização de velocidade, jornada e condições dos veículos naquele corredor?
O trecho integra a concessão administrada pela Via Araucária. A praça de pedágio de Imbituva fica no km 216, aproximadamente sete quilômetros depois do local da colisão.
A proximidade permite verificar se existem imagens da passagem do caminhão, registros de horário ou dados operacionais que ajudem a reconstituir o deslocamento. Também é necessário saber quais sistemas de monitoramento estavam ativos no km 209 e onde se encontravam os radares mais próximos.
A concessionária mobilizou ambulâncias, equipes de inspeção, guinchos e outros veículos operacionais. A rodovia permaneceu interditada por mais de seis horas para o atendimento, a perícia e a remoção dos veículos. CNN Brasil
Trecho está previsto para duplicação
O km 209 está dentro do corredor de aproximadamente 99 quilômetros da BR-373 previsto para duplicação entre Ponta Grossa e Prudentópolis.
As obras de ampliação de capacidade foram distribuídas ao longo dos primeiros anos da concessão. Isso significa que o pedágio já está em funcionamento, enquanto parte significativa da duplicação permanece programada para etapas futuras.
Ainda não existe base técnica para afirmar que a pista simples causou o acidente. Mesmo em rodovia duplicada, excesso de velocidade, fadiga ou falha mecânica podem provocar colisões graves.
A tragédia, no entanto, exige transparência sobre o cronograma: quando o km 209 será duplicado, quais medidas intermediárias de segurança estão previstas e quantos acidentes ocorreram nesse corredor desde o início da concessão.
O que a investigação precisa responder
A conclusão do inquérito dependerá da combinação de diferentes elementos:
- Qual era a velocidade dos dois veículos?
- O tacógrafo estava defeituoso antes do acidente ou foi danificado no impacto?
- A telemetria ou o rastreador preservaram dados?
- O motorista cumpriu os intervalos de descanso?
- Houve tentativa de frenagem?
- O caminhão apresentou falha mecânica?
- Existem imagens da praça de pedágio ou de estabelecimentos próximos?
- Havia radar ativo no trecho?
- Qual era o limite de velocidade sinalizado no km 209?
- O micro-ônibus possuía cinto disponível para todos os ocupantes?
Sem essas respostas, qualquer atribuição definitiva de causa ou responsabilidade seria prematura.
A Polícia Científica realizou a perícia no local e encaminhou os elementos coletados à Polícia Civil, responsável pelo inquérito. Os trabalhos incluem análise dos veículos, documentos, câmeras, vestígios na pista e depoimentos. CNN Brasil