Em discurso de forte carga política, presidente defende Requião Filho, Gleisi Hoffmann e aliados, confronta a extrema direita e coloca educação, soberania e inclusão social no centro da disputa eleitoral
Por Rafael Franek, Editoria Política
Rouco, mas longe de estar contido, Luiz Inácio Lula da Silva transformou sua passagem por Curitiba em algo maior do que um comício. Diante da militância, o presidente falou de passado, futuro, universidade, trabalho, mulheres e soberania nacional. Mas costurou tudo com um mesmo fio: a disputa contra a mentira como método político.
“A mentira nunca mais vai ganhar eleição neste país”, afirmou.
Lula chegou ao Paraná para colocar peso nacional na campanha de Requião Filho ao Governo do Estado e reforçar as candidaturas de Gleisi Hoffmann e dos demais aliados. Não fez um discurso burocrático. Falou como quem conhece a temperatura da rua e sabe que, a pouco mais de três semanas da votação, a eleição entra justamente no terreno em que as campanhas abandonam os ensaios e mostram o que realmente são.
De um lado, segundo ele, está um projeto de inclusão, educação e valorização do trabalho. Do outro, uma direita que se alimenta de fake news, ressentimento e submissão política aos Estados Unidos.
“Eu sou vítima da mentira”
Ao recordar os processos que o levaram à prisão, Lula elevou o tom contra adversários e setores da imprensa. Disse que passou 580 dias preso por acusações que não se sustentaram e voltou a perguntar onde estariam o sítio e o apartamento no Guarujá que lhe foram atribuídos.
“Estou até agora esperando: cadê o meu sítio e cadê o meu apartamento?”, provocou.
Lula afirmou que a imprensa ajudou a legitimar acusações contra ele, mas nunca teve coragem de reconhecer os erros cometidos. Para o presidente, o método se repete agora nas redes sociais: lança-se uma acusação, corta-se a resposta e corre-se para a internet em busca de aplausos instantâneos.
É a política reduzida à lacração — rápida, barulhenta e irresponsável.
Lula também rebateu as ofensivas da extrema direita sobre corrupção. Citou as investigações contra o esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas e afirmou que as apurações foram conduzidas pela Controladoria-Geral da União e pela Polícia Federal durante seu governo.
Sobre as suspeitas envolvendo integrantes de sua própria família, adotou outro tom: disse acreditar na inocência do filho, mas garantiu que não haverá proteção caso algum crime seja comprovado.
“Isso vale para mim, para meu filho e para qualquer ministro da Suprema Corte”, afirmou.
O recado procurou estabelecer uma linha divisória: investigar todos, proteger ninguém e impedir que acusações selecionadas sejam usadas como arma eleitoral.
Educação não é gasto
Foi quando falou de educação, porém, que Lula encontrou o coração do discurso.
O presidente comparou o número de universidades e institutos federais existentes antes de sua chegada ao Palácio do Planalto com a expansão promovida pelos governos do PT. Disse que um metalúrgico sem diploma universitário acabou se tornando o presidente que mais criou oportunidades de acesso ao ensino superior no país.
Não apresentou a expansão como obra pessoal, mas como resposta a uma dívida histórica.
Durante séculos, lembrou Lula, o Brasil reservou à população pobre os trabalhos mais pesados e manteve as universidades protegidas como território das elites. Indígenas, negros, filhos de trabalhadores rurais, pedreiros, empregadas domésticas e catadores de materiais recicláveis simplesmente não apareciam nos planos de quem governava.
Esse tempo, afirmou, precisa ficar definitivamente para trás.
“Quero que a filha da empregada doméstica possa disputar o mesmo concurso que a filha da patroa e que vença a melhor”, disse.
Lula defendeu a ampliação dos institutos federais, a universalização do ensino em tempo integral e a formação de jovens em áreas ligadas à programação, à revolução digital e à inteligência artificial.
Também afirmou que o Brasil precisa desenvolver uma inteligência artificial própria, em língua portuguesa, criada por brasileiros, em vez de apenas reproduzir tecnologias chinesas ou norte-americanas.
A frase mais importante veio sem números ou linguagem técnica: investir na formação de um jovem é barato porque o retorno permanece durante toda a vida.
O discurso tratou ainda do Pé-de-Meia, programa criado para impedir que adolescentes abandonem a escola. Segundo Lula, deixar um jovem de 14 ou 15 anos sem estudo e sem perspectiva significa entregá-lo ao crime organizado, à exploração e à marginalização.
O Estado, argumentou, não pode assistir a isso de braços cruzados.
A lembrança de dona Lindu
O trecho mais pessoal da fala surgiu quando Lula contou a história da mãe, dona Lindu.
Ele recordou a viagem de Pernambuco a São Paulo, em 1952, ao lado de oito filhos, e o momento em que ela descobriu que o marido vivia com outra mulher. Sem dinheiro e praticamente sem pertences, dona Lindu deixou a casa e criou os filhos sozinha.
Havia dias, contou Lula, em que não existia comida sobre a mesa. Ainda assim, a mãe repetia: “Hoje não tem, mas amanhã vai ter”.
A lembrança serviu de ponte para uma defesa enfática da autonomia feminina.
Lula afirmou que uma mulher com estudo, profissão e renda não precisa permanecer numa relação em troca de comida ou sobrevivência. Pode escolher com quem viver — e também pode escolher ir embora.
O presidente relacionou essa independência a políticas como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, ProUni, Fies e ampliação das creches. Em sua avaliação, garantir que os benefícios e a propriedade da casa cheguem prioritariamente às mulheres não é detalhe administrativo: é uma forma concreta de redistribuir poder dentro das famílias.
Em tom bem-humorado, Lula contou que também precisou aprender dentro de casa. Lembrou do dia em que chegou tarde e perguntou a Marisa Letícia onde estava o jantar. A resposta foi direta: estava no fogão; ele deveria esquentar e comer.
“Aí eu aprendi”, contou.
Entre risos, o episódio abriu espaço para um tema pesado. Lula defendeu uma transformação no comportamento masculino diante da violência contra as mulheres.
Segundo ele, criar leis é indispensável, mas insuficiente se os homens não aprenderem que mulher nenhuma é propriedade de marido ou namorado. O combate ao feminicídio, ressaltou, também começa dentro de casa.
Um país que precisa cuidar
Outro eixo do discurso foi a criação de uma política nacional de cuidados.
Lula observou que as mulheres historicamente assumem o cuidado dos filhos, dos maridos doentes e dos pais idosos, quase sempre sem reconhecimento e sem remuneração. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas envelhecem esquecidas dentro de casa, isoladas da vida familiar e social.
A proposta apresentada por Lula busca alcançar idosos, doentes, pessoas com deficiência e cidadãos que vivem sozinhos.
“O velho de hoje foi o adolescente de ontem”, resumiu.
A frase carrega uma ideia simples: quem hoje precisa de cuidado foi quem trabalhou, contribuiu, criou filhos e ajudou a construir o país. Cuidar dessas pessoas não é favor. É reciprocidade.
Do petróleo ao futuro
Lula também falou da descoberta de petróleo na Margem Equatorial e defendeu sua exploração como instrumento de financiamento do desenvolvimento brasileiro.
Ao responder às críticas sobre a contradição entre explorar petróleo e defender a transição energética, afirmou que o país deve utilizar essa riqueza para criar um fundo destinado à educação, à ciência, à tecnologia e à saúde.
O presidente não negou a necessidade de superar os combustíveis fósseis. Argumentou, porém, que o Brasil não pode abrir mão de suas riquezas enquanto outros países continuam explorando as próprias reservas.
A lógica apresentada foi direta: usar os recursos do presente para financiar a transformação do futuro.
Getúlio, CLT e inclusão social
Na reta final, Lula recuperou o legado de Getúlio Vargas, especialmente a criação do salário mínimo e da Consolidação das Leis do Trabalho.
Lembrou que férias, jornada regulamentada e direitos trabalhistas foram combatidos pelas elites econômicas com argumentos que hoje parecem absurdos — embora a resistência aos direitos dos trabalhadores continue bastante atual.
Depois de Getúlio, afirmou Lula, foram os governos do PT que construíram o maior conjunto de políticas de inclusão social do país.
O presidente citou a valorização do salário mínimo, a alimentação escolar, as bolsas educacionais e a retomada de programas desmontados ou congelados durante os governos anteriores.
Ao falar da economia, criticou a obsessão com o superávit fiscal quando ela serve para impedir investimentos públicos, enquanto o país transfere mais de R$ 1 trilhão por ano ao pagamento de juros.
A conta, segundo Lula, costuma ser apresentada de maneira conveniente: investimento social vira “gasto”; juros elevados viram responsabilidade.
Paraná no centro da disputa
O discurso terminou onde havia começado: na eleição paranaense.
Lula pediu votos para Requião Filho, Gleisi Hoffmann e os candidatos da aliança. Mais do que isso, convocou a militância a ocupar as ruas e disputar cada voto.
Disse que o adversário é poderoso, próximo e especialista em produzir mentiras. Por isso, não bastará confiar no palanque, nas redes sociais ou no peso dos nomes nacionais. A campanha terá de conversar com as pessoas e romper as bolhas que transformaram a desinformação em ferramenta eleitoral.
Também atacou políticos que usam a bandeira brasileira em seus atos, mas buscam apoio de Donald Trump e exibem bandeiras norte-americanas em manifestações.
“Este país não é um país de vira-latas. Este país não é uma republiqueta de bananas”, afirmou.
Foi o ponto de maior voltagem política da noite.
Em Curitiba, Lula não apresentou apenas candidatos. Apresentou uma escolha de país: de um lado, educação, trabalho, soberania e inclusão; de outro, mentira, tutela estrangeira e retirada de direitos.
Agora, como ele próprio lembrou, a decisão está nas mãos de cada eleitor.
A campanha entrou em sua fase definitiva. E Lula deixou o Paraná com um aviso que serve de orientação aos aliados e provocação aos adversários: eleição não se vence apenas denunciando a mentira. É preciso enfrentá-la na rua, olho no olho, antes que ela chegue novamente à urna.
Foto: Luis Pedruco