Em Curitiba, deputado troca o palanque pela memória, enfrenta o vazio dos rótulos e chama o eleitor para uma campanha construída no olho no olho
Há políticos que chegam a uma eleição como quem estreia uma roupa nova. Mudam o discurso, ensaiam indignações, descobrem causas de última hora e aparecem diante do eleitor com a embalagem ainda cheirando a gráfica.
Romanelli não chegou ontem.
Quando pegou o microfone diante de apoiadores e eleitores em Curitiba, ele carregava mais do que um número de campanha. Levava consigo as marcas de quem atravessou décadas de vida pública sem perder o hábito de falar olhando nos olhos.
Ao redor, estavam amigos de muitos anos, familiares, companheiros de antigas batalhas e pessoas que haviam acabado de conhecê-lo. Gente que riu e chorou junto. Gente que veio do interior. Gente de Curitiba. Gente movida não pelo espetáculo, mas por uma pergunta bastante simples: em quem ainda é possível confiar?
Romanelli respondeu contando de onde veio.
Pé-vermelho, nascido em Londrina, chegou a Curitiba há 46 anos. Não desembarcou com uma carreira pronta, sobrenome mágico ou mapa do poder debaixo do braço. Veio estudar e tentar construir um lugar na vida.
“Vim como muitos de vocês. Vim para estudar, para tentar ser alguém. E a vida acabou me empurrando para a política.”
A frase parece modesta, mas carrega uma época inteira.
Antes dos gabinetes, Romanelli esteve nas ruas de uma história que não cabia em vídeos de quinze segundos. Participou da redemocratização e ajudou a organizar o comício das Diretas Já realizado em 12 de janeiro de 1984, na Boca Maldita. Naquele dia, milhares de pessoas ocuparam o centro de Curitiba para exigir o direito elementar de escolher o presidente da República.
Era política antes de a política virar algoritmo.
Era rua, risco, convicção e presença.
Décadas depois, Romanelli ainda fala da democracia sem tratá-la como decoração para discurso. Para ele, eleição não é apenas uma disputa de nomes. É o mecanismo que renova o poder, cobra resultados e devolve ao cidadão a palavra final.
“A política só tem sentido se for para melhorar a vida das pessoas.”
Parece óbvio. Mas o óbvio anda em falta.
A rebeldia de resolver
O Brasil se acostumou a uma política que berra muito e entrega pouco. Uma máquina de fabricar inimigos imaginários, frases virais e batalhas ideológicas que começam pela manhã e desaparecem antes do jantar.
Romanelli prefere outro terreno.
Diz que a esquerda o acusa de ser de direita e que a direita desconfia que ele seja de esquerda. Não demonstra preocupação. Enquanto parte da política discute em qual prateleira deve colocá-lo, ele continua defendendo aquilo que considera útil para a população.
“Eu não fico preso a essas brigas. Para mim, o que interessa é o resultado. Eu trabalho com resultados.”
Em tempos de radicalização profissional, resolver problemas virou quase um gesto de rebeldia.
Romanelli falou sobre emprego, renda, juros altos, salários baixos e perda do poder de compra. Não pintou um Paraná de propaganda, onde tudo funciona e ninguém espera na fila. Reconheceu avanços, mas também apontou aquilo que ainda aperta a vida real.
Porque a vida real não acontece dentro de um slogan.
Ela está no ônibus lotado. Na consulta que demora. Na conta que vence. Na periferia que conhece o Estado mais pela ausência do que pela presença.
Foi nesse ponto que o discurso ganhou sua melhor definição sobre o poder público:
“O governo existe para diminuir as diferenças entre pobres e ricos.”
Romanelli defendeu o SUS, políticas para quem vive nas periferias e a discussão séria sobre tarifa zero no transporte coletivo. Não apresentou a gratuidade como truque eleitoral ou milagre financeiro. Falou em reorganizar o financiamento do sistema, dividir responsabilidades e abandonar soluções que já chegam vencidas.
“Precisamos começar a pensar fora da caixinha.”
Não é frase de seminário empresarial. É um aviso a uma cidade que ainda tenta resolver problemas novos com respostas envelhecidas.
A cidade que perdeu o metrô
Romanelli também tocou em uma ferida que Curitiba aprendeu a esconder debaixo do tapete: o metrô que nunca saiu do papel.
Enquanto Salvador aproveitou os recursos disponibilizados e construiu o seu sistema, Curitiba se perdeu em hesitações, disputas e escolhas políticas equivocadas. O dinheiro passou. O tempo passou. O metrô não veio.
Sobrou ao curitibano a plataforma imaginária de uma estação que nunca existiu.
Romanelli foi direto: quando a ideologia impede uma cidade de avançar, deixa de ser convicção e passa a ser obstáculo.
Curitiba não precisa de mais uma maquete bonita. Precisa de coragem para enfrentar seus atrasos.
“A cidade é um organismo vivo. É o lugar onde vivemos e que construímos para sermos felizes, e não para sofrer.”
Essa talvez tenha sido a frase mais humana da noite. Uma cidade não é o desenho frio de suas avenidas. É o tempo que uma mãe perde no transporte, a distância entre a periferia e o emprego, a espera em uma unidade de saúde, a praça ocupada pelas famílias ou abandonada pelo poder público.
Governar é interferir nesse cotidiano.
O resto é cenografia.
Uma vida pública aberta à pesquisa
Em determinado momento, Romanelli lançou um desafio incomum. Não pediu que acreditassem cegamente em sua palavra. Pediu que pesquisassem.
“Procurem na internet. Vocês não vão encontrar Romanelli envolvido em escândalo.”
A frase não veio acompanhada de trilha épica. Foi dita com a tranquilidade de quem sabe que a vida pública deixa rastros — e que nenhum discurso consegue apagar aquilo que o tempo registrou.
Romanelli não apresentou a si mesmo como santo, herói ou salvador. Política não precisa de santidade. Precisa de decência, experiência, coragem para decidir e disposição para prestar contas.
“Eu nunca prometi nada que não pudesse cumprir.”
Talvez esteja aí a fronteira entre o candidato fabricado e o homem público testado: um promete o mundo porque ainda não teve tempo de ser desmentido; o outro sabe o peso que cada palavra adquire depois de dita.
Dez votos e uma convicção
Na parte final, Romanelli desmontou a matemática sofisticada das campanhas e reduziu tudo ao tamanho de uma conversa.
Cada pessoa tem dez votos ao seu alcance. Talvez 30. Quem sabe cem. Não votos guardados no bolso, mas pessoas com quem existe confiança suficiente para conversar: parentes, amigos, colegas, vizinhos.
“Todo mundo tem dez votos.”
Não era uma ordem para repetir propaganda. Era um convite para apresentar razões.
A campanha que Romanelli propõe não começa na tela do celular, embora também passe por ela. Começa quando alguém aceita colocar a própria credibilidade em jogo e dizer a outra pessoa: conheço essa trajetória; vale a pena prestar atenção.
É o tipo mais difícil de voto. Não nasce do susto, do ódio ou do vídeo impulsionado. Nasce da confiança.
Romanelli terminou o encontro sem prometer atalhos. Pediu trabalho, presença e coragem para defender uma escolha.
No caminho até outubro, haverá ruído, propaganda, ataques e candidatos tentando nascer de novo diante das câmeras. Romanelli seguirá carregando uma vantagem impossível de fabricar em estúdio: uma história que já aconteceu.
Num tempo em que tantos chegam à política perguntando o que podem ganhar com ela, Romanelli ainda insiste na pergunta que realmente importa:
O que a política pode fazer pela vida das pessoas?
Ele não chegou ontem.
E é justamente por isso que sabe aonde quer chegar.
Por Luiz Roma