
Cresce a preocupação com aposentados endividados por apostas online enquanto pressão por regulação ganha força em Brasília Linha fina Especialistas alertam para o avanço silencioso da ludopatia entre idosos.
Luiz Filho
No Paraná, o tema já começa a preocupar setores da saúde, assistência social e lideranças políticas. As apostas online deixaram de ser apenas um fenômeno digital ou uma febre entre jovens conectados. O crescimento acelerado das chamadas bets começa agora a atingir um público mais vulnerável — e acende um alerta social também no Paraná: os idosos.
O tema ganhou força em Brasília após audiência pública realizada na Câmara dos Deputados reunir especialistas, representantes do governo federal e parlamentares em torno do aumento dos casos de ludopatia, o vício em jogos, entre aposentados e beneficiários de programas sociais.
O cenário preocupa porque mistura fatores explosivos: acesso fácil ao crédito; Pix instantâneo; publicidade agressiva; isolamento social; promessa de ganho rápido.
Na prática, especialistas afirmam que milhares de idosos passaram a enxergar as plataformas de apostas como entretenimento — mas muitos acabam entrando em ciclos de perda financeira, ansiedade e superendividamento.
A defensora pública federal Thaíssa Assunção de Faria afirmou durante o debate que o vício em apostas online já aparece entre os maiores problemas compulsivos do país. Segundo ela, o impacto vai muito além das perdas financeiras. “Estamos falando de recursos destinados à alimentação, medicamentos e moradia”, alertou.
No Paraná, o avanço das bets já começa a chamar atenção de profissionais da assistência social e da saúde pública, principalmente em municípios do interior, onde aposentadorias frequentemente sustentam parte importante da renda familiar.
Nos bastidores políticos, cresce a percepção de que o tema pode rapidamente ganhar dimensão semelhante a outras pautas de forte apelo social, como cigarros eletrônicos, golpes digitais e superendividamento.
Outro ponto que preocupa especialistas é a presença massiva das plataformas em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas publicitárias cada vez mais agressivas.
A coordenadora do Ministério dos Direitos Humanos, Paula Érica Batista, classificou o problema como uma forma silenciosa de violência patrimonial contra idosos. Segundo ela, muitas vítimas sequer percebem inicialmente o grau de dependência criado pelas plataformas.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde já passou a tratar oficialmente a ludopatia como questão de saúde pública, diante do aumento da procura por atendimento psicológico e psiquiátrico ligado ao vício em apostas.
Em Curitiba, o tema começa lentamente a entrar no radar político e institucional. A avaliação de interlocutores ligados à área social é que o debate sobre bets tende a crescer nos próximos meses — especialmente se o impacto financeiro sobre famílias continuar avançando de forma silenciosa.
Porque, no fim, a discussão deixou de ser apenas sobre jogos. Agora envolve saúde mental, proteção social e o limite da publicidade num ambiente digital cada vez menos controlável.