
A poucos dias da abertura das convenções, o favoritismo de Sergio Moro contrasta com a fragmentação da base governista. Sandro Alex, Rafael Greca e Requião Filho correm para transformar pré-candidaturas em projetos competitivos.
O período das especulações está chegando ao fim. A partir de 20 de julho, os partidos terão de substituir conversas reservadas, declarações calculadas e pré-candidaturas ainda negociáveis por decisões formais. No Paraná, as convenções partidárias prometem revelar não apenas quem estará na urna, mas principalmente quem conseguiu construir uma estrutura real de poder.
Até 5 de agosto, partidos e federações deverão escolher seus candidatos e definir as coligações para os cargos majoritários. A propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. É nesse intervalo que o tabuleiro paranaense deixará de ser uma coleção de possibilidades e começará a adquirir sua configuração definitiva, conforme o calendário estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O ponto de partida é aparentemente simples: Sergio Moro chega à reta decisiva da pré-campanha na liderança das pesquisas. Mas uma eleição não é determinada apenas por uma fotografia das intenções de voto. Tempo de televisão, capilaridade partidária, alianças regionais, estrutura municipal e composição das chapas começam agora a pesar tanto quanto o conhecimento acumulado por cada candidato.
É justamente nessa passagem — da popularidade individual para a força política organizada — que a disputa pelo Governo do Paraná pode mudar.
Moro lidera, mas agora precisa organizar o favoritismo
Sergio Moro entra na fase das convenções com a vantagem mais visível do processo eleitoral: seu nome já está consolidado entre os eleitores.
Levantamento do Paraná Pesquisas divulgado em 7 de julho colocou o senador à frente nos cenários estimulados, seguido por Requião Filho, Rafael Greca e Sandro Alex. A pesquisa ouviu 1.500 eleitores, segundo as informações publicadas pela Banda B e pelo Plural.
A liderança, entretanto, produz uma cobrança proporcional. Moro já não precisa provar que é conhecido; precisa demonstrar que consegue reunir uma chapa estadual capaz de sustentar sua candidatura fora dos grandes centros e além do eleitorado mais identificado com sua trajetória nacional.
O PL trabalha com uma composição que também pretende ocupar as duas vagas paranaenses em disputa no Senado. Essa concentração de candidaturas competitivas fortalece a marca partidária, mas aumenta a disputa interna por espaço, recursos e protagonismo.
Para Moro, o desafio das próximas semanas será impedir que a campanha se transforme apenas em um plebiscito sobre sua própria figura. O eleitor conhece o ex-juiz e o senador. Resta saber se conhecerá, com a mesma clareza, o projeto de governo que ele pretende apresentar ao Paraná.
Ratinho Junior enfrenta o teste mais difícil de sua liderança
Do outro lado do tabuleiro está a principal contradição desta eleição: Ratinho Junior encerra o segundo mandato com forte presença política, ampla base na Assembleia Legislativa e uma extensa rede de prefeitos aliados, mas ainda precisa transferir essa força para seu escolhido.
Sandro Alex foi apresentado como o nome do PSD para a sucessão. Ex-secretário estadual de Infraestrutura e Logística, ele procura associar sua candidatura às grandes obras executadas pelo governo, especialmente à Ponte de Guaratuba. A escolha também preserva a influência direta do governador sobre a campanha.
O problema é que apoio institucional e reconhecimento eleitoral não são a mesma coisa.
Pesquisas realizadas ao longo dos últimos meses mostraram Sandro Alex abaixo de Moro, Requião Filho e, em alguns cenários, Rafael Greca. Um levantamento do IRG divulgado em junho registrou crescimento do candidato governista, mas também mostrou um eleitorado ainda amplamente indefinido. Segundo o Plural, 58,8% dos entrevistados não indicaram espontaneamente um candidato naquele momento.
Esse é o espaço que o Palácio Iguaçu pretende ocupar.
A aposta do PSD é que a campanha formal apresente Sandro Alex ao eleitor como continuidade de uma administração bem avaliada. Para isso, o governador deverá emprestar não apenas sua imagem, mas também sua capacidade de organizar prefeitos, deputados e lideranças regionais.
Será uma transferência de prestígio sob pressão. Se Sandro Alex crescer, Ratinho Junior comprovará que sua liderança ultrapassa o próprio mandato. Se a candidatura permanecer distante da disputa principal, ficará evidente o limite entre a popularidade de um governo e a capacidade de fabricar um sucessor.
Greca tenta abrir uma terceira avenida
Rafael Greca ocupa uma posição singular. Depois de governar Curitiba por dois mandatos consecutivos, ele deixou o PSD e passou a construir no MDB um caminho próprio para o Palácio Iguaçu.
Sua pré-candidatura impede, até agora, que o campo político ligado ao atual governo se organize em torno de um único nome. Greca possui alta exposição na capital, experiência administrativa e um estilo político imediatamente reconhecível. Também carrega o desafio de transformar sua força curitibana em presença estadual.
O lançamento de sua pré-candidatura ocorreu em junho, em Curitiba, sob o argumento de reconstrução de um projeto próprio do MDB para o Paraná, conforme registrou o Plural.
A questão central não é apenas se Greca será candidato. É se o MDB pretende levar sua candidatura até o fim ou utilizar o capital político acumulado para negociar espaço em uma composição mais ampla.
Essa definição altera toda a eleição. Com Greca na disputa, o eleitorado de centro e parte da base política ligada ao atual governo ficam mais fragmentados. Sem ele, abre-se uma disputa direta por seus apoios, seu tempo partidário e sua presença em Curitiba.
Greca, portanto, não controla apenas o próprio destino. Sua decisão pode modificar o equilíbrio entre Moro e o candidato de Ratinho Junior.
Requião Filho busca ocupar o espaço da oposição
Enquanto a direita e o centro governista disputam alianças, Requião Filho tenta consolidar uma candidatura de oposição com identidade própria.
Seu sobrenome oferece reconhecimento imediato, mas também impõe uma comparação inevitável com Roberto Requião. O deputado estadual procura aproveitar o legado político familiar sem permitir que sua campanha seja percebida apenas como repetição.
Os levantamentos mais recentes o colocaram na segunda posição em diferentes cenários. Esse desempenho lhe dá uma base competitiva, mas ainda não garante que consiga reunir todo o eleitorado contrário aos principais nomes da direita.
Seu desafio será transformar oposição em alternativa. Para isso, precisará ampliar a agenda para além da crítica ao governo estadual e apresentar respostas concretas sobre desenvolvimento econômico, infraestrutura, serviços públicos, segurança e desigualdades regionais.
Também dependerá da convivência entre partidos e lideranças nacionais que nem sempre compartilham as mesmas prioridades no Paraná. Uma frente ampla pode entregar estrutura, tempo e militância. Pode também tornar mais difícil a construção de uma mensagem simples.
O Senado complica todas as negociações
A eleição paranaense de 2026 terá duas vagas para o Senado. Isso torna as alianças mais valiosas e, ao mesmo tempo, muito mais difíceis.
Os partidos não negociam somente o apoio ao candidato ao governo. Negociam duas candidaturas ao Senado, a vice, as chapas proporcionais e o espaço político de cada grupo depois da eleição.
Nomes com trajetória própria podem alterar as composições até as convenções. Entre eles está Alvaro Dias, cuja possível volta à disputa amplia a pressão sobre o MDB e sobre os demais partidos que tentam construir chapas competitivas.
O Senado também funciona como peça de compensação. Um partido pode abrir mão de lançar candidato ao governo se receber uma posição considerada viável na chapa majoritária. Mas, com duas vagas e vários nomes fortes, nenhuma acomodação será simples.
É nesse ponto que os bastidores ganham mais importância que os discursos públicos. As declarações de apoio servem para marcar posição; as vagas na chapa revelam onde o poder realmente foi distribuído.
As pesquisas mostram o começo, não o final
O favoritismo de Moro é o dado mais consistente disponível neste momento. Ainda assim, a própria pesquisa espontânea revela que parte significativa do eleitorado não acompanha a eleição com a mesma intensidade dos partidos e dos meios políticos.
Isso significa que a campanha ainda tem espaço para reorganizar percepções.
Sandro Alex tentará converter a estrutura do governo em conhecimento eleitoral. Greca precisará demonstrar que sua candidatura ultrapassa Curitiba. Requião Filho buscará unir a oposição sem desaparecer dentro dela. Moro terá de transformar vantagem pessoal em projeto estadual.
As convenções serão o primeiro grande teste dessas estratégias.
Até aqui, o jogo foi conduzido por pré-candidatos. Depois de 5 de agosto, será disputado por chapas, coligações, estruturas e interesses definidos. Algumas candidaturas sairão fortalecidas. Outras poderão sobreviver formalmente, mas entrar na campanha sem os aliados e os recursos que imaginavam reunir.
No Paraná, a eleição começa de verdade quando já não houver espaço para todos os planos ao mesmo tempo.